Espécie da semana

A Biodinâmica inicia hoje a rúbrica “Espécie da semana”, tendo sido escolhido como pioneiro o Mabeco, também conhecido como Cão Selvagem Africano ou Cão Caçador Africano.

Nome Científico: Lycaon pictus
Classe: Mammalia
Família: Canidae
Estado: Ameaçado
Dieta: Carnivora – maioritariamente antílopes (e.g. Impala (Aepyceros melampus), Kudu (Tragelaphus strepsiceros), Gazela de Thomson (Eudorcas thomsonii) e Gnu azul (Connochaetes taurinus))
Tempo médio de vida em estado selvagem: 11 anos
Tamanho: 75 a 110 cm
Peso: 18 a 36 kg
Grupo: matilha


O Mabeco, também conhecido como Cão Selvagem Africano, ou Cão Caçador Africano, é um dos maiores predadores do mundo.

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Altruísmo, trabalho de equipa, compaixão, lealdade e inteligência, são todas as qualidades antropomórficas que podem ser atribuídas ao Cão selvagem africano. E são essas qualidades que os tornam tão bem sucedidos como espécie.

Há histórias de três ou mesmo dois membros de mabecos que sobreviveram, por vários anos, graças à lealdade da matilha. Um mabeco que foi monitorizado pelo Projeto nacional da metapopulação do cão selvagem africano, pelo grupo de consultoria do cão selvagem KwaZulu-Natal (KZNWAG (KZN WAG) e pelo WildlifeACT, partiu a mandíbula e viveu durante anos através de comida que foi regurgitada pelos seus companheiros.

Organização social
As matilhas podem ser constituídas apenas por dois animais, mas para serem estáveis em termos evolutivos, devem conter no mínimo seis mabecos e não mais do que 30.

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Um grupo saudável é constituído por dois mabecos alfa – um macho e uma fêmea – seguido pelo resto do grupo de indivíduos gama.

A hierarquia é determinada por submissão, em vez de agressão, e todo o grupo é dedicado a proteger as crias e é responsável pela caça. O cão selvagem africano tem altos níveis de energia e brinca quase continuamente (mesmo depois de se alimentarem) como uma forma de ligação.

Caçadores exemplares
Perseguem as suas presas até a um ponto de exaustão, mantendo um ritmo constante, sendo o oposto do que acontece com a chita por exemplo, que pratica rajadas de velocidade mas curtas em tempo.

São animais que estripam a vítima, razão pela qual têm a reputação de assassinos cruéis. No entanto, quando o executam corretamente, este processo é significativamente mais rápido do que a tática de asfixia dos leopardos e leões. Contudo, dados recentes contrariam esta ideia e mostraram que os mabecos perseguem as suas presas maioritariamente por rajadas curtas e não longas. Além disso, não mostraram coordenação nos seus ataques, nem sinais de que fosse uma actividade coordenada em grupo. (Leia mais aqui)

Os submissos ficam responsáveis pela caça, correndo o risco de lesão, enquanto o par reprodutor é mantido fora desse risco. Isto significa que esses mais “azarados” têm a chance de empanturrar-se antes dos indivíduos do topo da hierarquia e as crias chegarem. Sendo o oposto ao que acontece no caso dos leões.

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O macho e a fêmea alfa dormem juntos, de forma a manter o grupo ligado. Socialmente são monogâmicos, mas reproduzem com outros indivíduos para assegurar as gerações futuras. Isso significa que os outros machos do grupo investem também no crescimento das crias, uma vez que existe a hipótese de que algum seja seu descendente.

Uma mabeco pode dar à luz entre 10 e 17 crias, e sua taxa de sobrevivência é proporcional à quantidade de adultos na matilha, os quais trazem o alimento regurgitado para a mãe e para as crias. As fêmeas de posição inferior na hierarquia também podem reproduzir, embora as suas crias tenham uma taxa de sobrevivência inferior. O período de gestação é de cerca de 70 dias.

Populações
O cão selvagem Africano em tempos ocupou todo o continente, mas actualmente está extinto no oeste e norte da África. No entanto, existem algumas populações que estão a ser monotorizadas em vários países, como Botswana, Zâmbia, Zimbabwe e Namíbia.

O corredor ecológico Selous-Niassa em Moçambique também desempenha um papel crucial para a espécie, apresentando actualmente a segunda maior população de mabecos no mundo. Na África do Sul também tem havido uma recuperação da espécie, devido à existência de reservas particulares que fazem trabalho de conservação. No caso da Tanzânia, ocorre 20% da população global de mabecos, e foram localizados recentemente 40 a 100 indivíduos na Reserva Natural Chinko na República Centro-Africana.

Ameaças
As causas do declínio dos mabecos são razoavelmente bem conhecidas e incluem fragmentação do habitat, conflito com os caçadores, agricultores e produtores de gado, morte acidental por armadilhas colocadas por humanos e acidentes rodoviários, capturas para jardins zoológicos em todo o mundo e doenças infecciosas transmitidas por animais domésticos.

Medidas de conservaçãowild-dog-lying-down-ed-selfe
Como é frequente, os humanos são parte da solução, bem como o problema. E o cão selvagem Africano está agora dependente das comunidades rurais para a sua sobrevivência.

Transformar caçadores em protetores através da criação de postos de trabalho e educação é, portanto, uma solução a longo prazo para este problema. Além disso, também seria importante a realização de campanhas de vacinação de cães domésticos nessas mesmas áreas rurais.

A formação de corredores ecológicos e a não existência de cercas entre as áreas protegidas é vital para os mabecos serem capazes de migrar corretamente e formar novas matilhas sem o risco de consanguinidade ou exigência de monotorização intensiva. Além disso, a existência de boas cercas e uma gestão adequada nos limites com áreas de comunidades, são fundamentais para uma acção de conservação bem sucedida desta espécie.

 

Curiosidades

  1. Cada animal tem um padrão de pelagem único, e são capazes de se reconhecer uns aos outros até 100 metros de distância. Além disso, os padrões são assimétricos, sendo o lado esquerdo do corpo diferente do lado direito.
  2. Têm apenas quatro dedos no pé, ao contrário dos outros cães, que têm cinco dedos nas patas dianteiras.
  3. A maioria dos ambientalistas prefere usar a tradução do nome do mabeco em latim – Lycaon pictus – que significa lobo pintado. Este nome descreve não só a pelagem “artística” dos mabecos, mas suscita também mais interesse pela espécie, sendo mais um ponto a favor da sua conservação.
  4. Organizações que trabalham para a protecção desta espécie: Painted Dog Research Trust, African Wildlife Conservation Fund e Endangered Wildlife Trust.

 


Fonte:
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